quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

para alex

Caro Alex Baradel

Primeiro agradeço por você ter relido a Muito e visto que em minhas palavras nada há sobre “cópia”. Valeu.

Onde é possivel ver mais fotos desse fotógrafo? (além da exposição em São Paulo?) Como diz a reportagem, estão com a família. Raras publicações, uma no catálogo “fotógrafos em 20 anos 1966-1986”; algumas no livro “Fotografia na Bahia 1839-2006” e no catálogo de São Paulo. Clicando aí ao lado na capa de um de meus romances, noutro blog encontrará uma no artigo passeio entre singular e plural.

Estou muito interessado por Pierre Verger e sua obra, e não entendo que mal Pierre Verger fez em relação a Voltaire Fraga para a senhora parecer tão amarga contro Verger (é apénas porque Verger é mais conhecido que o Voltaire Fraga? E porque Verger é francês de nascimento? Ele se comportou mal por alguma coisa?). Amarga, eu? Nan, nanin, nanão! Amargurarada por Verger ser mais conhecido do que Voltaire? Quando me vi com espaços de trabalho, passei a batalhar, junto com Célia Aguiar para divulgar a obra de Voltaire. O conhecer uma obra não implica desconhecer outra. Se hoje, quando qualquer pessoa saca seu celular e publica livro com tais fotos ainda há lugar para todos... imagine nos anos 40, texto do Fotografia na Bahia 1839-2006 in da photographia à fotografia:

Pierre Verger, que será visto na 2ª parte deste livro, chega à Bahia recomendado, através bilhete manuscrito, por Dr. Rodrigo de Mello Franco – diretor do Iphan, ao Prof. Godofredo Filho do Iphan-Ba. O “talentoso escritor e artista francês” não só recebe total assistência para realização das fotografias destinadas à reportagem da revista “O Cruzeiro”, como, a seguir e durante algum tempo, realiza diversos trabalhos para a instituição federal, devidamente comprovados através de orçamentos e recibos ali arquivados.* [* Cunha, Huides. A Fotografia, a imagem e o Patrimônio Histórico na Bahia 1937 à 1967. Salvador, 1997 (inédito)] Vive Pierre Verger na Bahia até à morte, quase aos cem anos de idade. O conhecimento de seu trabalho fotográfico, pessoal, dá-se graças ao trabalho de publicação de Arlete Soares a partir de 1980.

Da década de 40, período de expansão do amadorismo, a novidade na Bahia é a etnofotografia, além de Verger e Voltaire, lembre-se ainda Oscar Carvalho, Alexandre Robatto Filho e Marcel Gautherot, francês, que do pouco tempo passado na Bahia, deixou expressivo trabalho sobre a Região do São Francisco e do Recôncavo da Bahia.

 Veja só... que viagem a sua! Verger se comportar mal por alguma coisa... Quanto a nascer na França, vide mais abaixo. Temerosa de que este post fique longo vou velsar e revelsar ainda sobre alguns assuntos.

Na minha infância e início de adolescência conheci de perto Verger, uma certa convivência porque minha família e ele freqüentavam as casas de Mário Cravo, de Carybé, de Jorge Amado, Axé Opô Afonjá desde o tempo de Mãe Senhora. Quantas vezes, descendo o Taboão, a pé, de mãos dadas com meu pai ele me dizia vamos ver se a moringa de Verger está na janela. Dependendo da falta de pressa um chamava, o outro aparecia e trocavam palavras, amizade. Quando as meninas da Corrupio começam a publicar Verger vou adquirindo tudo, inclusive reedições. O primeiro autografado.

Em seu comentário, Alex, para mim e Marcus no post dele vejo a conversa da sapatada a aborrecer você. Naquele post do Licuri, escrevi um comentário bem humorado.  Imagine... eu lá no céu dos fotógrafos a “ajudar” Voltaire a dar sapatadas que ele não daria – pelo que conheci de meu véio... jamais daria sapatada em alguém!

Pensei seria uma boutade... Talvez nosso humor de nascença (seu e meu) tenha diferentes vertentes. Por falar em nascença, passei alguns anos de minha mocidade querendo morar na França. Não rolou. Agora está resolvido, quando chegar um distante dia quero minhas cinzas divididas em dois pacotes. Metade os sobrinhos jogam no rio Subaé em Santo Amaro da Purificação. A outra metade no rio Sena em Paris.

Veja, Alex, quando digo na reportagem da Muito sobre a qualidade de Voltaire versus Verger... defino: para mim. Não estou pedindo nem incitando ninguém para ver da mesma maneira. Repare... Entre os meus contemporâneos, para mim, o fotógrafo da Bahia é Adenor Gondim. E nem por isso eu deixaria de assinar a fotografia preto&branco de Célia Aguiar – como Voltaire, ela sabe da luz –, ou de Claude Santos e seus interiores. Não esqueceria as cores de Aristides Alves, as renovações casamenteiras de Marisa Viana, a urbanidade de Edivalma Santana, a chapada diamantina de Iêda Marques, as viagens de Arlete Soares, Isabel Gouvêa, meu mestre Rino Marconi a deixar para trás a fotografia, nosso Mariosinho (Cravo Neto) que ama Verger. Artur Viana, Arthur Ikissima e tantos caminhos mais de cada um deles, Arestides Baptista, Marco Aurélio Martins, Margarida Neide, Saturnino, Haroldo, Manu, Xando e tantos mais fotojornalistas, e de propaganda como Dario Guimarães, David Glat, Saulo Kainuma e tanto fotógrafo mais jovem. Tanto mar... tanto mar! E um Silvio Robatto, um Anízio Carvalho, um Vavá e um Voltaire Fraga que vieram antes de nós. Destes quatro Anízio está conosco, os outros estão no céu dos fotógrafos com Pierre Verger. Paro de citar nomes, é uma infinidade de gente muito boa, certamente salto ou atropelo fotógrafos sem querer (memória é uma miséra). Tenho certeza: ninguém vai se amargurar por conta de Adenor Gondim, para mim, ser "o fotógrafo da Bahia”. Muitos colegas pensam como eu. Quem pensa diferente lembra de Nelson Rodrigues: Toda unanimidade é burra.

O post ficou longo como eu não queria. Quero, pelo menos, esteja leve, humorado. De bem com você, Alex. De bem com a vida e com a fotografia.

 Fotografia de Voltaire Fraga; Barra, Salvador-Ba; casamento de meus pais Mirabeau Sampaio e Norma Guimarães Sampaio; 23 de janeiro de 1945. Algum leitor já lidou com fotografias de casamento anos 40? Nenhum caro colega faria uma foto dfestas. O enquadramento, o menino futucando a roupa do padre? no mínimo tomaria um piparote na mão. As fotos de Voltaire, para mim, muitas vezes, tem humor.

PS. Meu pai também era baianíssimo, filho de famílias do sertão e do recôncavo e o nome? Francês! As irmãs eram Bernadette e Henriette. Somos todos franceses.

Clicando no título remete ao LICURI

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

salvador shopping

salvador shopping
dia 26 de janeiro
entre 4:30 e 5h da tarde
anotação e desenho de maria sampaio

sábado, 24 de janeiro de 2009

mônica mota

Grande guerreira Mônica Mota.

Tento escrever sobre a guerreira nossa amiga do Grupo Bem Viver. Ou sobre Mônica mãe daquela menina tão linda que conheci um dia na porta da clínica. Ou sobre Mônica a filha a cuidar da mãe também com um câncer a avançar célere (partiu dia 12 de junho passado). Ou sobre Mônica de fé inabalável. Ou sobre Mônica de “novo amor, nova paixão, toda contente”.

Escrevo saudade.

foto de maria sampaio; dezembro de 2007

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

tabaroas (?)

A mãe leva as duas filhotas tabaroas para conhecer sumpálo. Passeiam em todos aquis e acolás, o tio de lá a mostrar o progresso às baianas bobinhas. Se falar oxente... reladeira... rumbora... o tio corre carimba os braços das tabaroas: baianada. De mesmo: carimbo, tinta, almofada: plaft! Uma noite de domingo voltam da capital para o interior, onde moram os parentes, o tio chama atenção para pista contrária: Vejam! Na Bahia vocês nem têm esta quantidade de carros. Sabem o que é isto? O progresso, dinheiro e muito trabalho. Uma das meninas respondeu: Ê meu tio! Qui riqueza qui nobreza! Parece um colar de préolas! Não adiantou choro nem vela, esperneio. Dia seguinte ele mandou tatuar o braço da menina “baiana”. Enquanto ela gritava aos prantos e aos soluços: -- eu sabia, eu sabia... o senhor não é mesmo baiano -- sou e arrenego -- né não, né não -- por que não sou baiano? -- porque baiano burro nasce morto.

foto maria sampaio; início da década de 1980; praça castro alves, salvador-ba

sábado, 17 de janeiro de 2009

meninas e mais meninas

três meninas do brasil. Três vozes Vozes. Três afinações super afinadas. Jussara Silveira, Teresa Cristina, Rita Ribeiro. Outra menina, generosa, além de ser A cantora do Brasil, montou sua Quitanda e vem presenteando o país com maravilhas maravilhosas como estes cd e dvd das três meninas do brasil. Viva Maria Bethânia. O público felizmente feliz agradece.

O repertório vai de recentes composições de alguma das meninas à canções de antes do nascimento delas (talvez). Tanto faz, até regravações de Jussara, Teresa ou Rita soam de um frescor inusitado, recém nascidas ao pé do meu ouvido. Integração tão intensa, delírio: essasmeninas se criaram juntas, juntas cantam desde pequenininhas!

De maria, mariazinha* jamais ouvira gravação, sabia de cór... era “nosso hino” na faculdade de economia, anos 60. Quando Jú e Rita dançam eu danço com meus paqueras no jardim da Piedade, Félix toca o piston, Ceará toca folha de fícus enroladinha. Na velha escola em frente à Secretaria de Segurança Pública todos os entoados e desentoados esquecemos a repressão, o cacetete, a polícia e cantamos a alegria, o amor, namoramos, vivemos nossa juventude.

Meu coração eu não dou

Porque não posso arrancar

Arrancando eu sei que morro

Morrendo eu não posso amar *

* de aloísio ventura; faixa 10/cd – 15/dvd

reprodução da capa in site da biscoitofino; foto no jardim da piedade autor desconhecido; salvador-ba, 1968 [em cima da estátua: ceará e olavo; no pedestal: lúcia coroa, moreira, firmino, eu e edmar; sentado: miguel]

em 18-1-2010 encontrei a foto original da praça da piedade e substituí.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

lavagem

Bonfim, dia de lavagem
foto de maria sampaio, anos 80

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

cadê todo mundo?
foto de maria sampaio; Santa Fé-Granada, 2005 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

edith oliveira, saudade

Edith com dona Canô e Mabel, samba na cozinha, 1975
Edith em casa, 2002
Edith no quintal de dona Canô, 2001
As Vozes da Purificação: Odília, Nené, Heda, Sídia, Zildinha, Elza e Olindina com Edith no adro da Matriz de NS da Purificação, 2002
Capa do cd produzido por J.Velloso. Tive a alegria de fotografar Edith e fazer a criação gráfica, 2002.
Fotos de Maria Sampaio. Todas as fotografias feitas em Santo Amaro-Bahia.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

para renata belmonte

"O que não pode ser" e é. Livro de contos de nossa Renata Belmonte, amiga da roda dos blocos de notas do espaço sideral. Não tenho formação nem tino para uma resenha de mesmo como as de Aeronauta. Aero as escreve com a maior competência. Sou uma velha leitora (ou leitora velha), apreciadora das artes. Gosto ou não gosto (parece rasteiro?). Na minha cabeça... no meu sentimento! A arte vem de lá, entra (ou não) pelos sete buracos de nossas cabeças. E a arte parida por nós, saiu... é de quem vê, é de quem lê. Gostarão ou não! Gosto, e muito, do livro de Renata Belmonte. Sei dos muitos poetas/escritores jovens de obra maravilhosa antes dos 30. Eles estão longe de mim no tempo e/ou na geografia. Renata etá aqui, palpável, a escrever contos. A menina tem um conteúdo de quem já viveu 300 anos! Além do mais é uma frasista da porra! Nem sempre a morte está ao alcance de todos. "Quando o circo se foi", o conto de abertura do livro, o encontro de mãe e filha tremendamente bem escrito. Dói no fundo de minha alma. No cinzeiro, cigarros destruídos como sonhos em um conto cujo título já é um conto "Aquela leve camada de poeira sobre a cômoda de mogno".Ó! em "Máquina de cantar" não deixaram o bichinho ser veado... ou virá a ser?Eu, a pequena adulta. Ela, a adulta infantil. Nós e a nossa improvável amizade. "Por flores e marços" é um grande conto. Pergunto a mim mais uma vez, como uma menina escreve tão bem assim?Terminei de ler o livro em uma sala de espera. O médico (novo) estava atrasado uma hora. O livro acabou, azar do médico, eu estava retada porque queria mais conto de Renata. Passei pela recepção, vou ali volto já... Não voltei.O conto nome do livro é demais, DEMAIS. A patroa é de uma crueldade tal, me deu vontade de entrar no livro e matar aquela fela-da-puta. O conto é especial de bem cosntruído. Viajei, fui prelibando um final assim, outro final... e jamais um final-não-final e tão final como o de Ranata. Perfeito.Vivá. Vivá!

PS. se não escrevi sobre cada conto? porque enxuguei meu texto, já estava longo comprido e extenso.

PS2. a publicação comeu todos os pontos parágrafos.

Rreprodução da capa do livro trazida do blog de renata.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

santos reis

para Juan Trasmonte
CICLO NATALINO. Natal no dia 25, réveillon dia 31 e reis no dia 06 de janeiro compõem o chamado ciclo natalino no interior da Bahia, que é vivido das mais variadas formas. O comercialismo da troca de presentes imposto aos grandes centros não é primordial, sendo da maior importância a Missa do Galo à meia-noite de 24 para 25, após confraternização das famílias em suas residências, assim como a armação de presépios (ou lapinhas) e apresentação de Ternos de Reis e Bumba-meu-boi, festa de largo e baile, que celebram a chagada do ano novo em Rèveillon Popular de 31/12 para 1/1.
Por exemplo, em CORRENTINA o povo e os tocadores de Reisados participam ativamente das festas natalinas. Em MORRO DO CHAPÉU os Ternos de Reis e Reisados daançam e cantam pelas ruas e praças. As ruas residenciais se organizam para receber os reiseiros com bebidas e merendas. Em SOUTO SOARES o reisado, com os homens de chapéu enfeitado e lenço no pescoço, canta e toca de casa em casa, pedindo esmola em nome dos Reis Magos.
[página abertura do mês de dezembro in Agenda 2003 da Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia; pesquisa e texto de Maria Sampaio]
REIS MAGOS. Chame de Festa de Reisado, de Reis ou de Santos Reis. Chame de Reisado, Ternos de Reis, Folia de Reis ou Natal de Reis. A Bahia homenageia os três Reis Magos. O comum é o grupo que canta e dança, acompanhado de tocadores (zabumba, pandeiros, viola, eventual sopro...) a visitar as casas, percorrer as ruas. Montagem de presépios ou lapinhas, apresentação do Bumba-meu-boi e o tamanho da festa , começando em dezembro ou realizada apenas no dia 6 de janeiro, são as diferenças nos municípios de ALCOBAÇA, AMARGOSA, APORÁ, ARACATU, ARACI, ARATUIPE/maragogipinho, BARRA, BARRA DO MENDES, BARREIRAS, BONITO, BRUMADO, CANAVIEIRAS, CASA NOVA, CASTRO ALVES, CIPÓ, CONCEIÇÃO DA FEIRA, CONCEIÇÃO DO ALMEIDA, CONCEIÇÃO DO COITÉ, CURAÇÁ, ÉRICO CARDOSO, GOVERNADOR MANGABEIRA, GUANANBI/morrinhos, HELIÓPOLIS, IBICOARA, IBITITÁ, IBOTIRAMA, IPACAETÁ, IPUPIARA, ITUAÇU, JEQUIÉ, JIQUIRIÇÁ,JUAZEIRO, LAGOA REAL, LAURI DE FREITAS, LENÇÓIS, MACAÚBAS, MONTE SANTO, MORRO DO CHAPÉU, MUCUGÊ, MUNIZ FERREIRA, MUQUÉM DO SÃO FRANCISCO,NAZARÉ, NOVA VIÇOSA, PALMEIRAS, PAULO AFONSO, PORTO SEGURO, RIBEIRA DO POMBAL, RETIROLÂNDIA, RIO REAL, SALINAS DA MARGARIDA, SALVADOR, SANTA LUZ, SANTANA, SANTANÓPOLIS , SANTO AMARO,  SÃO FELIPE, SÃO FRANCISCO DO CONDE, SÃO JOSÉ DO JACUÍPE, SÃO SEBASTIÃO DO PASSÉ, SENHOR DO BONFIM, TEOFILÂNDIA, TERRA NOVA, TUCANO, UIBAÍ, VERA CRUZ/jiribatuba E VITÓRIA DA CONQUISTA  [página abertura do mês de janeiro, idem]
Vimos pra cantar um rei
como se canta na corte
senhores donos da casa
Deus lhe dê uma boa noite
Deus lhe dê uma boa noita
alegremente cantamos
por despedida de festa
e entrada de bons anos
São José, Santa Maria
diz que vão para Belém
diz que vão cantar um rei
cantaremos nós também
Os Três quando souberan
que era nascido o Messias
Preparam seus camelos
com prazer e alegria
Já cantei, já recantei
Não aguento mais cantar
Já me dói o céu da boca
e o dentinho do queixá
cantoria de reis de domínio público colhido por mabel velloso
fotografias no "rei de rodrigo" de 2005; a colorida autoria mabel velloso; as pb autoria maria sampaio; santo amaro-bahia

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

em voga

Três rapazes em traje de paletó, colarinho duro, colete. Em a época, é o traje cotidiano. Se tu não és um bom observante, suplico tua atenção. Dois dos moços envergam gravatas largas; uma ponta de cordão de ouro pende na lapela, a outra ponta cruza a casa, trespassa o colete de um lado ao outro para guardar no bolsinho relógio de ouro com imagens trabalhadas a platina, madrepérola e diamante incrustado; chapéus de palhinha; uma imponente bengala. Tudo ao rigor do uso em voga. A mim, filho adulterino do pai deles, por obrigados eles a me colocar no retrato, obrigaram-me sentar na cadeira torneada, a ver se assim me escondem, enquanto, entrementes entredentes cochicham bastardo, bastardo. Invejam-me. Sou mais alto, mais bonito e mais inteligente do que eles. Sou poeta.
foto Lindemann; coleção maria guimarães sampaio; c.1900; retratados desconhecidos; bahia

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

fantasia

Desde a ida de mãe para o céu vivo entre minhas fantasias de mesmo e minhas fantasias fantasiosas – se tanto é possível. Realidade não há. Por que deixaram mãe me parir não compreendi jamais. Minhas camisas de pagão foram fantasias. Pirata, palhaço, índio. Assim cresci. Pierrôs, colombinas. Espanhola, matriosca, portuguesinha. A professora ensinou-me as quatro contas, escrita e leitura – esta não falta: estantes, montanhas de livros sobre livros nos muitos quartos do sobrado. Baianinha, gaúcho, pescador. Mãe e eu íamos de mãos dadas no bonde ou na marineti ao armazém, à feira, ao banco ou às livrarias. Marinheiro, aviador, dançarina, gata ou besouro. Não lembro de alguém mangando de mim. A cara de mãe (acredito) não permitia. Jamais perdeu aquele ar de louca ganho no dia em que perdeu o concurso da rainha do carnaval do Clube Carnavalesco Fantoches da Euterpe.

foto T.Dias; coleção maria guimarães sampaio; retratada não identificada; carnaval 1929; bahia