
Meio surdo, tom de voz alto, fala meio pegada. Ele é um cara especial. Formidável! Compra uma Brasília vermelha, equipa-a: jante de raios prateados brilhosos; uma mãozinha grudada no vidro traseiro dá adeusinho; sobre o painel um plástico verde-cheguei tem aplicado luxo em verde-mais-cheguei-ainda; quando o freio é acionado uma bola se acende no câmbio, mostra um caranguejo entre pedregulhos.
Constrói uma garagem de chão batido e telha vã. Arma uma tranpicância de madeira, rampeada e prega lençóis brancos sob o telhado. A Brasília, sobre o andor e sob o baldaquino, livre de umidade e caliças. A Brasília burnida, brilhosa, ninguém a dirige além do dono. “Deixei minha filha dirigir, ela passou em cima de um cocô de cachorro”
Em rara saída ele e sua Brasília caem no rio Subaé. Desmonta o amado automóvel, enxuga-engraxa peça a peça, a estofaria seca ao sol. Senta em uma cadeira preguiçosa ao lado do carro refeito, novinho, aprecia a beleza, lê jornal, recebe visitas. Agora... só anda a pé. Um menino, para não correr o risco de ser mal-entendido ou escutado, cutuca o homão, e cara a cara bem labiado diz: me ni no do rio!
Aí ele não agüentou mais. Desgostou-se. Vendeu a Brasília vermelha.
foto de anúncio na internet sem autor
PS: o blgspot enloqueceu de vez, voltou a dar intervalo de parágrafo > sem minha ordem!
PS2: juliana disse que a foto era de uma variant... arranjei outra também da net









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