segunda-feira, 29 de junho de 2009

freira & gondoleiro

-- Alôôô! Don Maria taí? É da parte de sô Nozinho... sim! NÔ... de Adenô! Ele manda dizer que as carne de fumeiro e as castanha, os maturi e os caju mais as laranja já seguiram (um balaio!) e pergunta cadê as bainha das calça? Ela já aprontou as costuras?
-- Signora Maria vá bene! Mangiamo tuta la carne, la sostanza, si! Cestella di frutta... tutto ao mare! Bacci al capo Don Adenor. (Costura uma zorra, ela tá é passeando e tomando champanhe)
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freira: foto ADENOR GONDIM, dia da procissão de corpus christi, salvador-ba, 11-06-2009; gondoleiro: foto maria sampaio, veneza-itália, 29-03-2007

sexta-feira, 26 de junho de 2009

o bahiano

Norminha, porque todo homem na Bahia sempre está a pegar em seus coisas? Pergunta à minha mãe sua amiga americana. Continua: é para mostrar que tem?
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PS. no começo dos anos 1960
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foto maria sampaio; rampa do mercado, salvador-ba; 21-6-2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

anavan... caminho da roça!

Véspera de São João, meu pai tomando todas. Final da tarde já cheio do pau "Nooorma! Prepare os meninos, vamos pra roça de sua avó! Vamos pro Cabula!". Morávamos no 38 da Afonso Celso. A noite querendo chegar. A chuva toró, tororó. Não seria qualquer cachaça de marido para desanimar minha mãe. Crianças e sacolas arrumadas, na primeira estiada aproveita gente, corre... Vamos pegar o carro-de-praça no Farol da Barra. O primeiro chauffeur recusa. "Vou não, Doutor... assim com essa chuva... a gente nem chega no Cabula". Meu pai tenta outro: "Eu vou, doutô! Vou porque tou mais bêbo qui o sinhô!".
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PS. Esta Tutu contou hoje. "E eu relembrei comovida" * o conversê de meu pai (daí que vem tanta história...), a risadaria de minha mãe (daí que vem tanta alegria).
olha pro céu meu amor **
Olha pro céu, meu amor
vê como ele está lindo
olha praquele balão multicor
como no céu vai sumindo
Foi numa noite igual a esta
que tu me deste teu coração
o céu estava assim em festa
pois era noite de são joão
Havia balões no ar
xote e baião no salão
e no terreiro o seu olhar
que incendiou meu coração
fotos. no cabula: fotógrafo e fotografada. fotógrafa e fotografado. mirabeau e norma mais arthur e maria; cerca de 1952; teria sido na manhã daquele são joão? as bandeirolas, foto maria sampaio; santo amaro-ba; 16-6-2008
* verso de mário lago in "número um".
** josé fernandes e luiz gonzaga

terça-feira, 23 de junho de 2009

anarriê... évem a chuva!

Debulha milho, quebra côco, rala côco. Separa milho bom de assar, de cozinhar ou de debulhar – reserva as palhas bonitinhas para vestir as pamonhas. Antes, corte e recorte das cartolinas e papel crepon, confecção das sortes com estalos e presentes; do papel de seda: as bandeirolas.

A vizinhança a trocar travessas de canjica enquanto a meninada solta traques esperando a noite chegar para embelezá-la com os fogos de artifício, fogueira acesa.

Começo dos anos 60, o Chame-Chame curte a tradição. Numa dessas vésperas de São João, na mesa de minha mãe as travessas de canjica esperam o positivo para levá-las. Uma irá para a casa de dona Amélia, outra para minha avó Belinha e tia I mais Dindinha, vão as de vó Carmena, Risoleta, dona Emina... Chega Carybé. Teria vindo buscar a de Nancy? Ele pede papel e tesoura. Sem riscar, vaza lindos desenhos. Coloca os moldes sobre as canjicas, preenche com canela em pó. E ninguém pôde guardar, todos comemos os desenhos de Carybé.

Alegria, beleza, generosidade. Carybé genial! MESMO.

foto cor de maria sampaio; santo amaro-ba; 28-6-2008 > foto pb de mirabeau sampaio; chame-chame, salvador-ba; c.1956 (eu e ramiro no primeiro plano mais carybé e evani)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

costureiras

Quem já viu um médico dizer "estou apertado de doentes"? Ou "estou apertado de reportagens" dito por um jornalista? "Estou apertada de retratos"? Nem pensar.
Só mesmo a costureira, enrolada no xaile da doida, recebe uma eu ou uma você, chegada em hora imprópria a querer istos e aquilos urgente, urgentíssimo. E ela, a costureira, voz macia:
-- Ah! b'inha filha... posso não... tá rendo não? ó pá í! Tou apertada de costura, fia.
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Aprontei minhas encomendas (textos e fotos), enviei por sedex. Furreca, não mais estou apertada de costura. Relaxei. Elas não afrouxam nunca. Sempre apertadas.
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foto maria sampaio; santo amaro-ba; 18-6-2009

sábado, 20 de junho de 2009

continho

O prédio na esquina de quatro cantos. Atrás das grades a espiar. Passa boi, passa boiada. Passam homens, mulheres, crianças. Saem de três esquinas descem pela quarta. Procissões, blocos de carnaval seriam? Talvez caminhadas da paz. Misturadas. Em silêncio. Não há palavra-de-ordem, nem bandas ou charangas. Em silêncio. Descem. Estudantes-barba-e-bolsa. Estudantas-mini-saia. Pierrôs. Encapuzados sevilhanos (sem matraca). Arlequins. Palhaços. Senhor morto. Lenços brancos acenam. Caminhantes de chinelo-sarga-bunda. Charolas vazias de santo, cheias de flores murchas.
Eu, colombina, escondida em vão de pilotis cercados de grades.
Eu, colombina, pelos pierrôs apaixonada.
Em vão.
Leva-me, arlequim.
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PS. trabalhei tanto, perco sono, chega continho.
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foto maria sampaio; procissão do senhor morto, salvador-ba; 1986

quarta-feira, 17 de junho de 2009

sumiço

Estou apertada de costura. Coisa rara hoje em dia é a véia receber alguma encomenda. Quando terminar os alinhavos e xuliados eu volto.
PS. contratei um carrinho desses para o pé da mesa do compu.
foto de maria sampaio; campo grande, salvador-ba, setembro de 1993

domingo, 14 de junho de 2009

continho

Lancha velha no meio de uma baía. Nem marujos, nem marinheiros ou piloto. Ela quer ir embora, circula pelas beiradas, equilibra-se. Nem um pé de gente – ou bicho. Longe, outra lancha pára aqui, pára ali, pára lá... onde ela está. Transporta-se, é transportada na lancha-busú. Desembarca no saguão do hospital. O mesmo freqüentado há cinco anos à procura do pai. Todo dia ela faz tudo sempre igual, anda de séca em méca dentro do prédio. Paredes largas. Andares de teto alto e piso sujo se equilibram em incontáveis pavimentos. O edfício envelheceu nestes últimos cinco anos. Desde o sumiço do pai. Elevadores incrivelmente novos. Dentro de um elevador cada ida-visita dela termina. Dentro de um elevador o caricatural enfermeiro brutamontes com a caricatural enfermeira boazuda a levam acima e abaixo – presa! Fazem dela um mané-gostoso até estonteá-la. Invariavelmente ela acorda den’de uma lixeira no meio da rua. Desta vez ela veio armada. – Confessem: mataram meu pai! Enterraram onde? Às gargalhadas o par-de-ambos curte. A curtição é tamanha, as lágrimas das risadas embaçam os olhos, não vêem. Recebem os tiros pelas fuças.

Ela saltou no mesmo sujo piso térreo. Apequenado. Vazio. Silencioso. Encontrou-se à deriva na lancha enferrujada no meio do nada. À deriva. Sem pai, sem mãe nem cão.

À deriva.

fotos maria sampaio; pb: torrinhas, recôncavo sul, bahia, 2/01/1994; cor: nosy be, madagascar, 9-3-2008

quinta-feira, 11 de junho de 2009

clássicos

Na garagem, clássicos dos anos 1960. Simca Chambord, Aero-Willys, Galaxie. Rural-Willys e Simca Jangada.
Noite alta céu risonho, de um pulo à janela do apê levada pelo som saído das potentes caixas de um carro qualquer. Clássico dos anos 2000: o pagode.
Muito bom o cavaquinho.
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foto maria sampaio; itaigara, salvador-ba; 5-1-2008

terça-feira, 9 de junho de 2009

conto photográphico

A mãe aquiescera, o paletó do filho pendurado no próprio braço. Condoída de tanto escutar “espinha, mãe... espinha!”. Nem assim o menino de pimpão se alegra. Calças (as espinhentas) e mangas compridas, o suspensório, a gravata... A menina choraminga, a manga bufante aperta o braço, ela sente gêge, agonia. A mesma cantilena “irpinha, mãe... irpinha”, relógio de repetição. A mãe, encalorada, de negro vestida, se permite a pose familiar diante da rolley-flex do pai das crianças.

Ah! se a foto não contasse um continho sobre o humor estragado pelo calor...

A foto mostraria – e mostra, a enfarpelação da indigitada família, trajes do início dos anos 50, para uma manhã dominical de ida ao Bonfim. Homens paramentados em terno e gravata. A foto seria – e é, testemunha da fardinha, do quepe, da cesta de dois descansantes baleeeiro... baleirô... ó o baleirinho!

foto mirabeau sampaio; largo do bonfim; c.1951

sábado, 6 de junho de 2009

as cores

Lendo o blog de Bernardo fui entender a menstruação de Santo Aamaro. Fiquei invocada quando cheguei lá em abril... parei o carro, fotografei, perguntei. É o prefeito, pintando tudo de vermelho, me disseram. Até nas fachadas dos bares parece haver um casamento da coca-cola com a prefeitura, todos vermelhos! 
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foto maria sampaio; santo amaro-bahia; 11 de abril de 2009

sexta-feira, 5 de junho de 2009

adivinha

o que é, o que é?
sobre o que velsam e revelsam claudius portugal, nilson galvão e maria sampaio?
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foto no automático

quarta-feira, 3 de junho de 2009

seu pai e meu pai

Bernardo,
seu pai e meu pai juntos, aparentemente no mesmo dia da foto do seu blog. No mesmo lugar, sim. Anos 1970s na casa de Tutu, porém  em diferentes aniversários de André e Juliana.
Corta.
No 81, Campo da Pólvora, escritório da Casa Stella. Entra Bernardo em minha sala. 
-- Cadê tio Carmilton? -- Foi direto para a sala de tio Mirabeau... -- Xiii... meu pai hoje está da chuça carapuça, pegando e agarrando. -- O meu? Por aí.
O tempo a passar... fomos pé ante pé espiar pela fresta da porta. Vimos. Os dois às gargalhadas. Diante daqueles dois nos recolhemos à nossa insignificância de subnitrato de pó de pum de pulga espalhado ao vento.
Corta.
Diário de meu pai. Registro de alegria ímpar, o comandante deixara o automóvel em sua mão para nos fins de semana ir com Norminha e Tutu à Itapuã, queriam as famílias reunidas no veraneio. Nem você nem eu éramos nascidos.
Corta.
Dois homens tão diferentes entre si,  também diferentes dos homens seus conteporâneos. Tão iguais na amizade e companheirismo.
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foto maria sampaio; c.1977

terça-feira, 2 de junho de 2009

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foto maria sampaio; maragogipe-ba; 25-08-1985