



olha pro céu meu amor **

Debulha milho, quebra côco, rala côco. Separa milho bom de assar, de cozinhar ou de debulhar – reserva as palhas bonitinhas para vestir as pamonhas. Antes, corte e recorte das cartolinas e papel crepon, confecção das sortes com estalos e presentes; do papel de seda: as bandeirolas.
A vizinhança a trocar travessas de canjica enquanto a meninada solta traques esperando a noite chegar para embelezá-la com os fogos de artifício, fogueira acesa.
Começo dos anos 60, o Chame-Chame curte a tradição. Numa dessas vésperas de São João, na mesa de minha mãe as travessas de canjica esperam o positivo para levá-las. Uma irá para a casa de dona Amélia, outra para minha avó Belinha e tia I mais Dindinha, vão as de vó Carmena, Risoleta, dona Emina... Chega Carybé. Teria vindo buscar a de Nancy? Ele pede papel e tesoura. Sem riscar, vaza lindos desenhos. Coloca os moldes sobre as canjicas, preenche com canela
Alegria, beleza, generosidade. Carybé genial! MESMO.
foto cor de maria sampaio; santo amaro-ba; 28-6-2008 > foto pb de mirabeau sampaio; chame-chame, salvador-ba; c.1956 (eu e ramiro no primeiro plano mais carybé e evani)

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Lancha velha no meio de uma baía. Nem marujos, nem marinheiros ou piloto. Ela quer ir embora, circula pelas beiradas, equilibra-se. Nem um pé de gente – ou bicho. Longe, outra lancha pára aqui, pára ali, pára lá... onde ela está. Transporta-se, é transportada na lancha-busú. Desembarca no saguão do hospital. O mesmo freqüentado há cinco anos à procura do pai. Todo dia ela faz tudo sempre igual, anda de séca em méca dentro do prédio. Paredes largas. Andares de teto alto e piso sujo se equilibram em incontáveis pavimentos. O edfício envelheceu nestes últimos cinco anos. Desde o sumiço do pai. Elevadores incrivelmente novos. Dentro de um elevador cada ida-visita dela termina. Dentro de um elevador o caricatural enfermeiro brutamontes com a caricatural enfermeira boazuda a levam acima e abaixo – presa! Fazem dela um mané-gostoso até estonteá-la. Invariavelmente ela acorda den’de uma lixeira no meio da rua. Desta vez ela veio armada. – Confessem: mataram meu pai! Enterraram onde? Às gargalhadas o par-de-ambos curte. A curtição é tamanha, as lágrimas das risadas embaçam os olhos, não vêem. Recebem os tiros pelas fuças.
Ela saltou no mesmo sujo piso térreo. Apequenado. Vazio. Silencioso. Encontrou-se à deriva na lancha enferrujada no meio do nada. À deriva. Sem pai, sem mãe nem cão.
À deriva.
fotos maria sampaio; pb: torrinhas, recôncavo sul, bahia, 2/01/1994; cor: nosy be, madagascar, 9-3-2008
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A mãe aquiescera, o paletó do filho pendurado no próprio braço. Condoída de tanto escutar “espinha, mãe... espinha!”. Nem assim o menino de pimpão se alegra. Calças (as espinhentas) e mangas compridas, o suspensório, a gravata... A menina choraminga, a manga bufante aperta o braço, ela sente gêge, agonia. A mesma cantilena “irpinha, mãe... irpinha”, relógio de repetição. A mãe, encalorada, de negro vestida, se permite a pose familiar diante da rolley-flex do pai das crianças.
Ah! se a foto não contasse um continho sobre o humor estragado pelo calor...
A foto mostraria – e mostra, a enfarpelação da indigitada família, trajes do início dos anos 50, para uma manhã dominical de ida ao Bonfim. Homens paramentados em terno e gravata. A foto seria – e é, testemunha da fardinha, do quepe, da cesta de dois descansantes baleeeiro... baleirô... ó o baleirinho!
foto mirabeau sampaio; largo do bonfim; c.1951
Lendo o blog de Bernardo fui entender a menstruação de Santo Aamaro. Fiquei invocada quando cheguei lá em abril... parei o carro, fotografei, perguntei. É o prefeito, pintando tudo de vermelho, me disseram. Até nas fachadas dos bares parece haver um casamento da coca-cola com a prefeitura, todos vermelhos!
o que é, o que é?