quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

capitães da areia

Adoraria saber colocar o video aqui, o máximo que acerto é colocar o link: vão lá, provem o tira-gosto do filme de Cecília Amado a partir do livro Capitães da Areia de Jorge Amado.
foto maria sampaio; Cecília Amado dirigindo Capitães da Areia; rampa do mercado, salvador/ba; 21-6-2009

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

armazém

Rua de terra, esburacada, empoeirada. Jardins de matagal: a praça. Fome faminta a corroer aventureiros de nada em lugar quase nenhum.
Armazém de prateleiras vazias. Marido e mulher velhos, cansados zangados - arriar de portas fim do dia. O menino-de-recado, no fundo da loja, corta um táco de pão e uma toreba de requeijão, pega a moringa d'água. Uma topada. O requeijão esborrachado sob o peito do menino. O pão empapado a derreter-se entre os cacos de barro da moringa.
[um dos desaventurados jura ter visto o velho estender o pé no caminho do menino]
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foto maria sampaio; interior da bahia; 24-6-1983

domingo, 27 de dezembro de 2009

camarão

Ele a esperar o camarão sêco. Recepção de hotel, variadas elegâncias serviçais em brasonadas vestimentas. Porteiros, mensageiros, recepcionistas - tecidos azuis, vermelhos; galões dourados. Ele a esperar o camarão sêco. Uma mulher fina vestida em tailleur de tweed estende-lhe cor-de-rosa embrulho (sem cheiro).
- Abra, por favor, quero ver o tamanho e o sabor do camarão
- Não precisa, fui a fornecedora dos Beatles
- Ora, minha senhora, os rapazes de Liverpool nunca comeram camarão sêco! Vou para a Bahia, comer moqueca de camarão fresco e frigideira de maturi com camarão sêco. Em Santo Amaro, terra de Caetano Veloso e Maria Bethânia .
fotos maria sampaio; cores em Tamatave-Madagascar/África, 12-3-2008; pb em Santo Amaro-Bahia, 15-2-92

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

depô cachorral 20

Eu não quero outra vida pescando no rio de gereré. Não sei o que é gereré, nem conheço rio -- de água corrente somente os canais aqui de Veneza. Aprendi a canção, compreendi a referência a uma vida boa de se levar. Não me queixo. Tenho meu tapete a esquentar-me da umidade desta cidade. O bípede ali não se furta a brincar comigo. Em casa ou no trabalho. Gostaria de viver no campo a tanger rebanho de carneirinho, vida apropriada a um border collie. Mas sendo a amizade um bem maior, pastoreio garrafas plásticas vazias. Eu e meu amigo bípede, eu e meu sócio na loja.
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foto maria sampaio; veneza-itália; 30-03-2007
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PS. Agora em 2009 quando, da porta, abri os braços festejando o border collie, o bípede não era o mesmo de 2007. Me deu uma baixa, me esculhambou, o cachorro não estava ali para ser fotografado, a loja era para vender objetos. Eu sequer apontara máquina. Devolvi a baixa, disse: costumo cumprimentar os cães antes de dirigir a palavra a um humano idiota como você.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

conto photográphico, o armário

Ele gostava de abrir as duas portas do armário. Se fazia calor abria e fechava como se fôra um leque, refrescava-se. Ou abria como quem abre geladeira no meio da noite, bestamente, tudo igual e diferente. Nada. Nadanão, nadanão... o cheiro de madeira velha, o tato na pintura esfolada. O olhar observante: um paliteiro de prata cujos palitos fossem a chuva na sombrinha do palhaço; cabeça de mulher em biscuit esculpido descendente ao pescoço e decote, seios fartos; um baúzinho de louça em cuja tampa senta-se elegante moçoila de pernas cruzadas, mãos no queixo, cachorrinho sentado ao lado; uns dois ou três jarros; discos LPs.
Abra o armário meu mano... abra o quanto queira! O cheiro de madeira velha, o tato na pintura esfolada. Perdeu a graça, harmonioso demais. Uma "louça completa". Louça completa nunca havida em casa dos pais deles.
foto maria sampaio; bahia; 6-2-2008

sábado, 19 de dezembro de 2009

grata, gratíssima

à Santa Luzia, aos médicos, aos parentes&amigos, à vida
Cerca de um mês (mais? menos?). Perdi o prumo do tempo. Vexames nas vistas. Idas e vindas a médicos e exames, o medo comendo no centro. Ó: estou caminhando para os dez anos de lide com o câncer. Não tenho tenho medo, não me apavoro. Sigo tudo corretamente, prazos, consultas, tratamento. A vida vai sendo vivida numa boa.
A possibilidade de um câncer no olho... puta-merda! essa me apavorou. Mas já foi. Acabou. Nem câncer nem pivide. Zero bala.
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autorretrato no espelho do banheiro; 4-12-2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

depô cachorral 19 (edição extraordinária)

Desculpe, senhora... não posso conversar agora. É hora da siesta. Como? o rapaz ali? não é meu dono não senhora.
foto maria sampaio; Maragogipinho-Ba; 21-11-2009
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(... apenas roncos)
foto maria sampaio; praça reis católicos-garibaldi; 14-12-2009
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Quando voltar da sorveteria me traz um picolé de côco. Aí sim, a senhora bate mais outras chapas.
foto maria sampaio; ribeira; 13-12-2009
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Ah, fia! consegui entrar aqui nesta grade. Cansei eles. Estou só fazendo de conta, mas eles dormiram mesmo. Cansei eles!
foto maria sampaio; itaigara; 13-12-2009
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Nem me chame, não me engane. Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Estou guardando a vaga do carro de meu humano.
foto maria sampaio; tororó; 21-8-97

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

alegria

foto mirabeau sampaio; janela do 12, chame-chame; setembro de 1957
da esquerda: lucinha de albertina, nanan (maria luiza), eu e marquinho

domingo, 13 de dezembro de 2009

santa luzia

"Para que quero eu olhos
Senhora Santa Luzia
Se eu não vejo meu amor
Nem de noite nem de dia"
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Mesmo sem ver amor eu quero olhos, sim, Santa Luzia. Olhos de enxergar de mesmo. De noite e de dia. Olhos de ler. Olhos de fotografar. Olhos de apreciar meus parentes&amigos. Olhos de viver. Grata, gratíssima, graticícissima, Santa Luzia.
Livrai-me, Santa Luzia, de uma pivide no olho.
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versos de um fado-canção, autor desconhecido
santa luzia em desenho de maria sampaio

sábado, 12 de dezembro de 2009

para bernardo, primo guimarães

Volta da praia. Caçamba da Willys Overland de tio Carmilton. Entrada lá de casa, no Chame-Chame. Os irmãos ARDO: Leo - Edu - Bern. Na outra foto, minha mãe sorri feliz a receber irmão e sobrinhada enquanto meu pai registra tudo (encontrei o filme completo). Lúcia, Ana Maria, Maria Luiza (Nanan) e eu. Adoro reparar esta foto. Minha comadre Pião fagueira, de banho tomado, de vestido, bracinhos cruzados - a mais alegre das quatro. Pudera! Nós três enlouquecidas tentamos amenizar a quentura do muro com as mãozinhas embaixo das coxas. Cadê Tutu e Mena?
foto mirabeau sampaio; chame-chame; salvador-ba; cerca de 1958

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

meu avô chimbo, bomba

Esta "Atlantic" com enoooorme escritório e depósito ao lado, é a "bomba do Farol". A bomba de gasolina de vô Chimbo. Na pose, um "excelente rapaz" dos muitos que trabalharam neste e outros afazeres com meu avô. Meu avô adora ficar lá. Paletó de pijama e calça qualquer. Ou vive-versa: calça de pijama e camisa esporte. Tamancos. Anelão de bacharel em direito no dedo, a estender a mão, ele mesmo a colocar gasolina nos importados carros dos ricos da Bahia, a receber dinheiro, passar trôco. Uma das filhas: - mas papai... que necessidade tem o senhor de ficar servindo na bomba? e vestido desse jeito... o que dirão do senhor? Ele, de bate-pronto: ora minha filha! eu cago para o mundo e limpo a bunda com a opinião pública.
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foto arthur guimarães sampaio; farol da barra; cerca de 1957

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

nossa senhora da conceição da praia

Quem ainda vai lá na conceição da praia desde a véspera tomar todas? Amanhecer o dia? Assistir a missa, comprar frutas, acompanhar a procissão?
desenho de maria sampaio (feito em 1999 tentando representar todas as invocações de nossa senhora para o mês de maio mês de maria; mas é uma conceição sobre os crescentes lunares; e conceição pode ser representada com a criança, sim)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

memória de menina

Aos sessenta e um anos de idade, tenho lido durante esta semana sobre os cinquenta anos da chegada da arquiteta Lima Bo à Bahia. Menina, escutei-a dizer-se arquiteto Lina Bardi.
Chegante à Bahia dona Lina logo faz parte da turma de amigos frequentadores da casa de Lúcia e Mário Cravo (no Rio Vermelho, hoje uma das rótulas da Garibaldi). Os artistas curtem a amizade, conversam, bebem, dançam, artistam em seus desenhos e esculturas, leituras. Sou menina, aprecio aquela mulher alta, elegante, cheia de sotaque, a frequentar a casa de meus pais, cliente das costuras de minha mãe.
Escuto conversas-de-gente-grande: é a gestação e nascimento do Museu de Arte Popular da Bahia. Museu de Arte Moderna da Bahia. Lá estão, entre outros, além de Lúcia e Mário Cravo (anfitriões), Carybé e Nancy, Jenner e Luiza, meu pai e minha mãe. Quando enfim todos os trâmites foram vencidos, a diretora sendo dona Lina, o solar do Unhão em mãos para a reforma, surge um detalhe por parte do Governo da Bahia. Necessário nomear-se um "executor do convênio" e este, obrigatoriamente seria um funcionário público. Baixou a deprê no pessoal. E se o burocrata mexesse no projeto? e se descumprisse compromissos. Verdade, havia dona Lina, havia Renato Ferraz para garantimentos. Mas o desconhecido? Em meio à deprê geral soa a gargalhada de Mário Cravo. Enlouquecera? "Simples assim... a solução está aqui!" Mirabeau Sampaio, médico de profissão, comerciante por necessidade, artista por vocação. Os artistas, apoiados e a abraçados pelo velho seu Mário (pai do escultor) frente ao governador Juracy Magalhães, conseguem. O governo transfere Dr. José Mirabeau Sampaio de secretaria e ele é o executor do convênio. Eu-menina queria sempre passar pela avenida de contorno para ler a placa da obra do Museu de Arte Popular, Museu de Arte Moderna da Bahia de onde saltava mais de tudo, o nome de meu pai: Dr. José Mirabeau Sampaio.
Em 64 já sou mocinha no Colégio Estadual Manoel Devoto. Mário Cravo vai com a família para a Alemanha. Chega Jorge Amado com Zélia, João e Paloma para a vida baiana. Das noites Cravinas de sexta-feira passa-se para as dominicais manhãs Amadianas.
Em abril dá-se o golpe.
Tudo muda.
fotos Mirabeau Sampaio; terreno de mário cravo: maria > arthur e ramiro > sossó; meado anos 1950

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

anucha

Anucha, do primeiro ano primário à quarta série de ginásio. Ana Cristina Gondin Araujo. Inteligente, brincalhona. Estudiosa. Grande figura. Morava no ed. Maysa (encontro da Vitória com o Campo Grande). Último andar, um piano de cauda na sala. Mãe amabilíssiba. Irmãs bacanas, mais velhas. Não fomos íntimas nem nos desencontramos vida afora. Amigas. De muito bem-querer uma pela outra. Recentemente, nos irmanamos no Núcleo de Oncologia da Bahia. Formou em sociologia exerceu a astrologia. Construiu bonita família, filhas, neta. Grande e respeitada astróloga: Ana Becker, nossa Anucha. Adeus.
9 de abril de 2005 reunimos colegas do primário e ginásio lá em casa em almoço que terminou noite alta céu risonho. foto de anucha por maria sampaio. foto do grupo por célia aguiar.

santa bárbara

desenho de maria sampaio, 1999

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

adeus, adeus

Comprando uns livrinhos na Tom do Saber fui comunicada: vai fechar. Ouço falar: a Civilização Brasileira vai fechar.
Escrevi e reescrevi sobre o assunto, nada prestou, estou triste o suficiente para embotar.
tom do saber: foto de sandro passos, 2009; civilização: foto de edivalma santana, 2004