
Aos sessenta e um anos de idade, tenho lido durante esta semana sobre os cinquenta anos da chegada da arquiteta Lima Bo à Bahia. Menina, escutei-a dizer-se arquiteto Lina Bardi.

Chegante à Bahia dona Lina logo faz parte da turma de amigos frequentadores da casa de Lúcia e Mário Cravo (no Rio Vermelho, hoje uma das rótulas da Garibaldi). Os artistas curtem a amizade, conversam, bebem, dançam, artistam em seus desenhos e esculturas, leituras. Sou menina, aprecio aquela mulher alta, elegante, cheia de sotaque, a frequentar a casa de meus pais, cliente das costuras de minha mãe.

Escuto conversas-de-gente-grande: é a gestação e nascimento do Museu de Arte Popular da Bahia. Museu de Arte Moderna da Bahia. Lá estão, entre outros, além de Lúcia e Mário Cravo (anfitriões), Carybé e Nancy, Jenner e Luiza, meu pai e minha mãe. Quando enfim todos os trâmites foram vencidos, a diretora sendo dona Lina, o solar do Unhão em mãos para a reforma, surge um detalhe por parte do Governo da Bahia. Necessário nomear-se um "executor do convênio" e este, obrigatoriamente seria um funcionário público. Baixou a deprê no pessoal. E se o burocrata mexesse no projeto? e se descumprisse compromissos. Verdade, havia dona Lina, havia Renato Ferraz para garantimentos. Mas o desconhecido? Em meio à deprê geral soa a gargalhada de Mário Cravo. Enlouquecera? "Simples assim... a solução está aqui!" Mirabeau Sampaio, médico de profissão, comerciante por necessidade, artista por vocação. Os artistas, apoiados e a abraçados pelo velho seu Mário (pai do escultor) frente ao governador Juracy Magalhães, conseguem. O governo transfere Dr. José Mirabeau Sampaio de secretaria e ele é o executor do convênio. Eu-menina queria sempre passar pela avenida de contorno para ler a placa da obra do Museu de Arte Popular, Museu de Arte Moderna da Bahia de onde saltava mais de tudo, o nome de meu pai: Dr. José Mirabeau Sampaio.
Em 64 já sou mocinha no Colégio Estadual Manoel Devoto. Mário Cravo vai com a família para a Alemanha. Chega Jorge Amado com Zélia, João e Paloma para a vida baiana. Das noites Cravinas de sexta-feira passa-se para as dominicais manhãs Amadianas.
Em abril dá-se o golpe.
Tudo muda.
fotos Mirabeau Sampaio; terreno de mário cravo: maria > arthur e ramiro > sossó; meado anos 1950