sábado, 30 de janeiro de 2010

para nilson galvão, o leão tá quente

O retratista subiu a escadaria carregando sua traquitana porque, dizia ele, melhor seria junto ao leão. Imaginava uma foto com toda a pompa do leão, como a de Guió e Zilda. Nós escondemos o leão e Nanan, agoniada, queixava: ai, meu tio! O leão tá quente!

Se o lambe-lambe foi o mesmo das duas fotos, quem há de dizer? Uma das fotos está copiada aos contrários. Acima no original Zilda-Guió o leão olha para a direita. Abaixo, na nossa, o leão olha para a esquerda. Ao se inverter uma ou outra, ó o mesmo leão, no mesmo lugar. O mesmo rabo, os mesmos degraus, palmeiras, casas ao fundo.

“o leão tá quente” foto de lambe-lambe; monumento do ipiranga, são paulo-sp; janeiro de 1962; da esquerda> sentados: lúcia minha prima, tia nícia, minha mãe, tio joffre – em pé: as primas nanan, maria inês e eu. O outro leão trouxe do blog de nilson.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

isabel apocalíptica.14

Nos anos 1970 uma moda de “casalzinho boneco de barro” a enfeitar de estante a bodoir. Isabel Apocalíptica: – ó Don Maria, a muiézinha, caiu... de mão estendida me mostra os cacos da boneca. – Jogue fora Isabel. Daí uns dias, o hominho.

Anos depois: – Don Maria lembra das bonequinha qui tia Niça deu? – Claro, Isabel, que você quebrou! – Intão Marinês ti contou? – Contou o que Isabel? – Contei a ela, in segredo. Eu tava de barriga, só quiria cumê barro, a parede di meu quarto já toda buracada. Óiava queles buneco... ô vontade, dizque é “deseje de prenhe”. Não teve jetio, pensei cá comigo... se a buneca quebrá Don Maria manda jogá no lixo. Num deu ôta. Andava cum os pedaço nos borso. In casa, no trabáio, de a pés, no coletivo... Cumi tudim.

foto maria sampaio; itaigara-bahia; 17-12-2008

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

viagens ressonantes

Nunca menos de quarenta minutos. Sem contar os antecedentes interrogatórios: doenças? remédios. Claustrofobia? Alergias? teretetê... Cintilografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética. Este, o mais chato por conta da barulheira. Quando você começa a pegar no sono plaquete, plunquite. Não dá pra dormir como nos outros. No que ajeitam a cabeça e as pernas já fechei os olhos. Viajo. Ontem, peguei o avião mais Ju(ssara) fomos a Lisboa. Pelas ruas e muralhas de Óbidos passeamos, ái o azul. Pegamos o elétrico 28 desde a praça ao pé da Mouraria até o fim de linha, renque-nhenque qual duas meninas a apontar a Baixa, a subida da Sé, o alto da Alfama e por aí fomos. A gargalhar pela alegria de estar em Lisboa tomamos café n’A Brasileira sentadas ao lado de Fernando Pessoa. Andamos a pé, subimos ou descemos os tantos elvadories de lá, Santa Justa, da Glória, da Bica... Às noites, ao fado. Parreirinha d’Alfama de dona Argentina Santos, Baiúca, Mesa do Frades. Escutei o lindo, lindíssimo canto de Ju. A platéia inteira levantou-se e aplaudiu. Pronto.

foto do aparelho de ressonância tirei do site da santa casa de misericórdia de lindoia s/cr de autor; ao pé da mouraria/lisboa foto de maria sampaio, 27/2/2008
PS dia 28/1: reparei o prédio branco à direita bem ao pé do morro na Mouraria... repare aê: parece com o aparelho da ressonância magnética.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

conto photográphico, adultos cruéis

Por que os adultos são tão cruéis com as crianças? Precisavam expor minhas pernas de alicate? Dama de honra. Ora, dama da honra de quem? Da querida tia, bonita jovem, a casar com um homem sobrancelhudo como Monteiro Lobato. E inteligência, teria como o do mestre Lobato? Duvi- dê-ó-dó. A mim deram-me uma cestinha, uma obrigação. E minha pobre irmã? De mãos a banana, enluvadas. Estão a ver o olhar assombrado? Ela tinha medo do bigode e das sobrancelhas do homem que levaria nossa tia para lugar algum onde jamais a encontraríamos. Nem encontramos.

foto da coleção maria guimarães sampaio; sem identificação de fotógrafo nem fotografado

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

conto photográphico

A personagem do conto encontra o rapaz no fundo do quintal, alto da escada, a cuidar de uma construção. A cantora évem chegando, a determinar a metragem do palco, a acústica local.
O cachorro late.
Dia seguinte a personagem vem de cima. Não há cão nem escada. Cá... é tudo mar. Maré mansa. Ela quer só nadar. No cais muitas malas, sacolas, isoporas. Nenhum maiô.
Os viajantes não esperam.
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foto maria sampaio; tibúrcio na casa do chame-chame; salvador-ba; 10-10-1994

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

conto photográphico, chapeludas

Dr. bigodudo e suas chapeludas. Guardadas por jovens eunucos.
sem identificação nem autoria [anos 1920]; coleção maria sampaio

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

casamentos

Desde amadora* uma coisa eu sabia, não seria retratista de casamento e batizado. O casamento de Jorginho e Mariana foi o número 4 de minha carreira foto-casamenteira. O número 3 foi dela, ó, ali atrás entre os noivos. Grande Lála, mãe do noivo. (O pai à direita da foto). Só de ver a Igreja decorada com cavalinho-de-flecha já se percebe a beleza do casamento. Mil. Valeu a pena fotografar. O casal lindo será feliz, com certeza - sem medo de errar!
fotos maria sampaio; matriz de ns da purificação, santo amaro-ba; 16-01-2010 --- * fotografo desde os 12 (+_) estou às vésperas de completar 62... são 50 anos! Poderia ter fotografado o casamento de Mabel - avó de Jorginho- se já a conhecesse.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

livro de yulo

Gosto de Yulo. Gosto do ator Yulo. Espero gostar do escritor Yulo.
Recebi o texto abaixo e fiquei ansiosa para ler o livro. Vamos lá!
O ATOR YULO CEZZAR ESTREIA NA LITERATURA
Ator dos mais conhecidos e atuantes no cenário teatral da Bahia, Yulo Cezzar mergulha na literatura e lança o seu primeiro livro, “A Saga das Palavras Incertas”, no próximo dia 26 de janeiro (terça-feira), às 17:30 h, no Solar Café – Av.Contorno (Solar do Unhão). Sua estreia literária traz uma prosa poética carregada de lirismo e refinado humor, num universo metafísico instigante, onde a brincadeira com as palavras é livre e dinâmica, propiciando ao leitor uma espécie de “grafia musical”.
“A Saga das Palavras Incertas” conta a história de um adolescente obrigado a amadurecer em meio a uma “realidade absurda”, onde a ficção e o real se misturam. Tonho, o Tonto, personagem principal, tem que construir o seu Eu, em meio à desordem das palavras que, incertas, escrevem o livro do qual ele também faz parte. Utilizando-se de sintaxe concretista, ressaltada na grafia das palavras, o autor, em parceria com Matilde Schnitman, responsável pela diagramação, insere na poesia a linguagem visual tão presente na internet. O livro tem edição independente e foi impresso na Cartograf.
Agitador cultural, com mais de 30 peças teatrais e 02 filmes no currículo, além da direção e produção de espetáculos, Yulo Cezzar já trabalhou com Luiz Marfuz, Deolindo Checcucci, Márcio Meirelles, Carmen Paternostro, Paulo Dourado, dentre outros nomes notórios do teatro.
Atualmente, dirige o Armazém Cenográfico da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB) e prepara um novo espetáculo teatral (texto e direção), inspirado livremente no conto “O Diário de Adão e Eva”, de Mark Twain, com estreia prevista para julho de 2010 – uma das propostas vencedoras do edital “ Ed, o Tal”, do Theatro XVIII.
Agradecemos a divulgação.
Contato do autor: (71) 99911600 yulocezzar@ig.com.br
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imagem: reprodução do convite recebido

domingo, 10 de janeiro de 2010

de maracujás e interrogações

Sentada à sombra do barco "amor de puta" conserta sua rede de arrasto. O rosto é um maracujá de gaveta. A retratista com a câmara em mão estendida, depois dos cordiais bons-dias etc: "Posso?" > "Tanto faz, te conheço" > "?" > "Pode largar a cara de interrogação, te conheço de 68, porra!" Ninguém rendeu conversa. A retratista agradeceu, não bateu a chapa, partiu com sua decepção e sua cara de interrogação.
Depois, bem depois, a idéia iluminou: viu a si mesma no 19BC, tomando porrada daquela mulher. Naquele então, a estudante possuía cara de interrogada e a carcereira cara de maracujá-do-mato.
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foto maria sampaio; subúrbio ferroviário, salvador-ba; 8-3-2009

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

quase armazéns

Quer costurar para a neta vestidos como a mãe fizera para ela. Batizado, primeiro aninho... Uma lista de compras. Tecidos e aviamentos tais como: organdi, fustão, cambraia de linho, popeline... carrinhos-de-linha-de-costura e meadas-de-linha-de-bordados, renda inglesa, sianinha, passamanaria, colchete, pressão, fecho-eclair, botões de diversos formatos furos e cores. Papel manteiga e carbono para os debuchos. Em Salvador não encontra quase nada, vai à Mesblinha em Santo Amaro. Daí em diante corre mundo atrás de tecidos e aviamentos. Em 2009, as sianinhas em armarinho de perdidas ruas malaguenhas. Finaliza as compras em Roma, embrulha tudo, amarra com cordão dos bons. Chega à Bahia a tempo. Para costurar o vestido de quinze anos da neta.
fotos maria sampaio; pb: sr. nhozinho oliveira, santo amaro/ba, 21-5-95; cor: roma, 16-10-2009

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

outro armazém

O sujetio se zangou no jornal, pediu as contas. Voltou a estudar, no estágio remunerado... zangou também. Foi embora. Colou grau de borla e capelo, anel de pedra preciosa. Zangou. Pegou o jipe e e as economias da mulher, comprou um armazém no interior. Convive bem com o porta-grãos, a vitrine de pão-doce e a vitrine de cadernos e bics, o côco-sêco e verduras sobre o balcão, os ovos. Lataria. Garrafas. Da moderna friza tira cervejas cu-de-foca para consumo próprio enquanto a nova mulher cuida de tudo.
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foto maria sampaio; interior da bahia; 14-02-1994

sábado, 2 de janeiro de 2010

aos amigos, pra começo de conversa no 2010

Estendo a mão, para um aperto do bom. Daí para "um abraço apertado, um suspiro sobrado, um amor sem fim"*. E vamos pra frente que atrás vem gente. Viva. Vivá.
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* verso de "beijinho doce", autor: Nhô Pai
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foto maria sampaio da própria mão; 2-01-2010