
O Hotel da Bahia é meu contemporâneo – mas não brincamos juntos. Vivo no Chame-Chame e ele no Campo Grande, grã-finérrimo. Grã-fino é coisa ou gente desses nossos anos 1950 – quando envelhecermos ainda haverá grã-fino? A nós, meninos e meninas , nem importa se hotel é lugar de hóspedes. No Palace da rua Chile um dia visitamos Pedro Borges lá hospedado mas o Hotel da Bahia é um edifício bonito, moderno e impenetrável. Dizque tem paredes cobertas com painéis de Carybé e Genaro de Carvalho, luminárias criadas por Mário Cravo. Imensos salões freqüentados por gente chique e artistas no Baile do Galo Vermelho – abertura do carnaval. Baile de Debutantes... uma verdadeira passarela desde o rampeado em U onde os automóveis deixam as debutantes frente à imensa porta do foyer de pé direito triplo e ELA em seu primeiro salto do alto dos 15 anos, vestido longo – muitos bordados em filós, narles e verludos, pedrarias a enganchar-se em trousses da colega (de propósito, feia, para estragar meu longo?). De mãos dadas com o pai a mocinha em debut, roliudianamente, sobe a cinematográfica escadaria. Depois da valsa com papai ao som da orquestra de Carlos Lacerda ou Vivaldo Conceição estará à disposição dos rapazes trajados em smoking ou summer-jackets para bailar, valsar, bolerar (sambar nem pensar, no máximo um puladinho). Meninas-moças abusadas como eu, achamos tais bailes uma tabaroice. Preferimos nos divertir, às gargalhadas (quando possível) ou aos mal disfarçados risinhos (quando necessário) fazendo o sereno.
Martha Rocha se elegeu Miss Bahia em concurso no salão de baile do Hotel da Bahia – inimaginável o chiquê para quem conheceu misse nos Silvio Santos da vida.
Toda uma vida pulula cotidianamente no Hotel da Bahia que, nos anos 10 do século XXI a Bahia andará às voltas querendo, mais uma vez, exterminar. Exterminador do Futuro 2, 3, 4?
Salão de Beleza. Comandado por Maia, um homenzinho pequeno, totalmente careca (nem sobrancelhas), O cabelereiro, assim como Borges – do Sinhá, primeiro concorrente, situado defronte do Hotel da Bahia na esquina da rua Banco dos Ingleses. O Sinhá é mobiliado com móveis do sec.XVIII, criação e propriedade de Rita Guimarães e Lenira. Nasce ali o cabelereiro de todos os tempos Severiano (uma bela biografia, quem se habilita? É vivo, vestido de vermelho e barbas brancas, de mesmo, se diz papai-noel).
Nestes 50s até meados dos 60s... Jangadeiro serve moquecas em palhoça na Pituba; o China serve sarapatel e galinha de molho pardo nos fundos de um sobrado na ladeira do Barbalho; o Manoel da Barra e sua galinha (de receita secreta) no Ao Conquistador; os balcões dentro e os tamboretes e bancas na rampa do Mercado – algum mais chique? A Churrascaria Gaúcha, quase no Farol. Talvez algo mais requintado na Boîte Oceânia. No Hotel da Bahia o restaurant vai do bom ao refinado paladar, serve as primeiras mayonneses, strogonoffs e presuntos baianos. Apresenta canapés e cocktails, aceita encomendas: de banquetes à pequenos serviços ou pratos como uma das de tia Magá cuja foi buscada pela amiga Ana Amélia e meu avô Chimbo dirigindo seu lexéu. De repente meu avô se trumpicou canteiro acima e tebefe na palmeira centenária. Maionese por todo lado, camarões embaraçados nos lindos cabelos de Ana Amélia que escutava vô Chimbo: – também... plantam uma palmeira de um dia pro outro no meio da rua, em pleno Campo Grande, e não avisam nada! A ninguém...
Aos fins de tarde, à beira da piscina, toma-se drinks, tão tão quanto o Golden Room do Copacabana Palace-RJ. O conceito de pequena loja chamada Boutique estreou no Hotel da Bahia – a mais famosa funcionou até a primeira decadência e fechamento do Hotel. Um mix de galeria de arte e antiquário (fino, não aquelas montoeiras da rua Ruy Barbosa, estamos nos 50-60) A Boutique de Luz da Serra – outra grande figura baiana (nascida em Pernambuco) a ser biografada, está na hora Waltinho Queiroz!
O Hotel da Bahia, sem esquecer da boîte, nestes anos inovadores reina absoluto como espaço para convenções; encontros de investidores, lojistas, médicos, advogados; feira de produtos; congressos...
Se nos anos 2010 o prédio de A Tarde, na Praça Castro Alves, poderá ser hotel por que acabar o Hotel da Bahia podendo torná-lo tão moderno para os dias atuais quanto o foi há 50, 60 anos?
PS. Leio que o governo baiano botou o dedo no suspiro, do leilão só poderão participar redes hoteleiras, nada de rifar o prédio para qualquer coisa. Tomara, oxalá, assim seja.
hoje escrevi longamente, demais, xuxu às pampas. - foto sem crédito; hotel da bahia; trabalhei no Encontro de Investidores do Nordeste; novembro de 1967 -